Eu preciso começar este texto esclarecendo que quem vos fala é um adulto de 46 anos que desde os 15 já era fascinado pelas tecnologias digitais. Aprendi a usar o computador com um software de treinamento quando estagiei no Banco do Nordeste, em Petrolina, e à mesma época já pedia pra meus pais me colocarem em cursos de programação em Juazeiro, cidade onde nasci (lembro bem das aulas que tive do QBasic!📼☎😊 ) . Claro, fui daqueles que pagava pra jogar videogame nas lan houses, pois não era porque não tinha em casa que ia deixar de "desfrutar" de uma tecnologia tão fascinante pra um jovem. Imagina!
Minha atuação como professor sempre foi marcada pelo uso das tecnologias digitais no ensino...então eu sempre "respirei tecnologia". Meu TCC na especialização foi sobre o uso do Scilab no ensino de Cônicas (e olha que ele tá longe de ser uma solução "pedagógica") e no mestrado analisei as possibilidades de uso do Second Life nos contextos educacionais. Ou seja, sim, eu sou um entusiasta do uso das tecnologias.
Alguém com meu perfil poderia sempre "defender" as tecnologias digitais em qualquer debate. Não é o meu caso! Minha experiência sempre mostrou que se o uso não é norteado por um olhar crítico então sempre cairemos na armadilha de simplificar o debate ofuscados pelo fascínio que uma nova solução gera.
Confesso que meus olhos abriram mais no período da pandemia, com o aumento de horas de uso tanto no trabalho quanto em outras áreas da minha rotina. No entanto, o que mais tem me feito refletir sobre outras dimensões do contexto atual é o contato com a realidade de muitos jovens desde quando assumi a coordenação do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas (NAPNE) do campus onde atuo. As demandas que tenho visto (relacionadas a estresse, depressão, solidão, ansiedade, etc) me fazem crer que precisamos nos aprofundar no tema.
Por isso achei que precisava expor isso aqui e compartilhar um material muito interessante que conheci ao longo da leitura do livro Tecnologia na Infância: criando hábitos saudáveis para crianças em um mundo digital, da premiada psiquiatra de Harvard, a Dra. Shimi Kang.O bom de uma leitura como essa é que nos apresenta as relações causa-efeito necessárias pra uma compreensão mais profunda de como as coisas acontecem. Na obra, a especialista descreve como os neuroquímicos (como dopamina, cortisol, endorfinas, oxitocina e serotonina) atuam no cérebro quando interagimos com alguns aparatos tecnológicos.
A autora faz isso através do relato de alguns estudos de casos com seus pacientes, além de mostrar como as empresas de tecnologia incorporam recursos e funcionalidades nas suas soluções que bebem dos estudos da psicologia cognitivo-comportamental para provocar determinada reação nos usuários. Inclusive cita o famoso "O Dilema das Redes", que me impactou (como muitos) ao trazer relatos de quem está por dentro das BigTechs sobre as estratégias das mídias pra ganhar nossa atenção, principal "ativo" da atualidade.
Bem, eu não entendo que descrever aqui como cada neuroquímico age vá surtir algum efeito pra você...até porque eu não sou especialista no assunto e não quero me arriscar a cometer algum erro. Sugiro que leia o livro pois ele tem uma leitura fluida e agradável, mesmo nos trechos mais "técnicos".
Mas posso deixar aqui 05 pontos de uma "dieta digital saudável" que acho viáveis de se implementar e que foram abordados no livro (tem muito mais orientações, claro!):
- Adie ao máximo possível o acesso às "telas" pelos seus filhos! - essa pode ser a principal orientação do livro. Eu tenho uma amiga que decidiu só dar um smartphone à filha depois de parte da passagem da infância...mesmo com as cobranças de porquê ela era "a única aluna da turma sem um celular". Todas as colegas já usavam, menos ela! Diálogo e paciência (além de diversificar as formas de ocupar o tempo livre e dar uma câmera pra produzir seus vídeos 😁) foram a solução encontrada pela família;
- Desative as notificações - configurando seu dispositivo para não te ALERTAR sobre mensagens recebidas e postagens nas suas redes sociais. Alguns estudos têm demonstrado que manter-se em estado de ALERTA continuamente desencadeia uma séria de reações que podem ser prejudiciais no longo prazo;
- Tire um dia de folga digital - calma que isso não é impossível! 😁 Mesmo que, pra você, usar as tecnologias digitais sejam necessidade por causa do trabalho, sempre tem o final de semana. Eu, por exemplo, tenho tentado não pegar no celular a partir das 12h do sábado até a noite do domingo. Ou pelo menos não acesso o WhatsApp que é o principal app para demandas de trabalho que eu uso;
- Evite o uso de tecnologia nociva - como o uso das redes sociais para comparação com outras pessoas, uso de vários recursos na ilusão de uma "multitarefa" que não existe, uso de recursos que promovam solidão, postura inadequada, períodos prolongados na mesma posição e privação de sono;
- Consuma a tecnologia saudável - ou seja, a que "libera endorfinas por meio da pausa e do autocuidado, oxitocina por meio de uma interação significativa com outras pessoas e serotonina por meio de brincadeiras e criatividade". Ou seja, usar aplicativos de monitoramento de atividades físicas, usar as redes sociais e aplicativos de mensagem pra conversar com amigos ou parentes que não vê há muito tempo ou até plataformas como o Khan Academy pra aprender algo novo de "Matemática" ou "Animação" são formas de uso saudável das tecnologias digitais...e até recomendadas!
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Finalmente voltando a ter a companhia de Sherlock Holmes... |