"Devia restringir o perfil de deficiência já nas cotas, pois essa área de atuação não é pra qualquer pessoa. Nenhuma empresa vai contratar um <????????> pra trabalhar!"
"Meu filho é não verbal e precisa de atendimento com terapia <???????>, que é mais adequada pra ele. Se não tiver esse tipo de serviço não vale a pena pra mim estar aqui!"
"Esse passeio tem recursos de acessibilidade, sim! Aliás, nem todos! Nesse caso só pessoas com <???????> podem fazer junto com o grupo."
Essas três sentenças eu já ouvi em contextos distintos, seja no trabalho ou em outros espaços em que tive que lidar com demandas relacionadas às pessoas com deficiências ou TEA. Escolhi só 3, mas poderia listar mais algumas que carregam significados muito parecidos e que eu sempre encaixo em uma categoria de inclusão que é muito recorrente e que eu chamo de "inclusão de nicho".
Pra mim, a inclusão de nicho acontece toda vez em que se prioriza ou destaca um subgrupo dentro de um grupo social formado por pessoas com alguma deficiência ou transtorno para o atendimento de alguma demanda. Ela se manifesta quando um grupo luta por seus direitos sem considerar a luta de outro grupo (ou do grupo mais amplo, quando estes se encaixam no mesmo "perfil"), ou quando sua demanda só é atendida parcial e pontualmente, sem qualquer preocupação em ampliação do escopo pelos agentes responsáveis pela solução.
Por exemplo, particularmente, eu fico incomodado quando se discute a criação de um centro de atendimento especializado para pessoas com TEA, enquanto outros grupos ficam excluídos por não estarem mais no centro do debate. Mesmo sendo pai de um autista! E o mesmo acontece quando são apresentadas soluções como a priorização das cotas (e essa eu já ouvi mais de uma vez!) ao invés de pensar alternativas de atuação profissional ou até mesmo cumprir um direito assegurado, como a educação ao longo da vida.
E se você não vê muitos problemas nessas falas, pois pelo menos algum tipo de inclusão já estaria em curso...é justamente isso que eu queria trazer pra reflexão. Até que ponto achar que "alguma inclusão" já é suficiente numa sociedade como a nossa? Uma mentalidade referenciada na inclusão de nicho não seria mais uma barreira de acessibilidade que freia o avanço da inclusão de pessoas com deficiência nos diversos espaços sociais?
O pior é que essa mentalidade também está impregnada em grupos de pessoas com deficiência que não percebem que, se reconhecendo como minorias (de fato!) deveriam mudar o "mindset". E deveriam aprender observando como negros, mulheres e outros grupos sociais que lutam por seus direitos para viverem em uma sociedade justa precisaram de tanto tempo pra sentirem os resultados da mudança na sociedade, mesmo não sendo "minorias".
Sim, quero currículos concebidos considerando os vários perfis, centros de especialidades que atendem demandas comuns, e experiências pensadas em considerar mais diversidade. Se não sabemos fazer agora, que continuemos com essas metas em vista e não descansemos até que a inovação para a inclusão aconteça.
Que 2026 tenhamos consciência que a "inclusão de nicho" não pode moldar a mentalidade de uma sociedade que quer melhorar as condições de vida de pessoas com deficiência ou transtornos, seja em casa, no trabalho e no convívio com os outros.
E a minha causa, no contexto da inclusão, precisa ser a nossa causa!
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