"Devia restringir o perfil de deficiência já nas cotas, pois essa área de atuação não é pra qualquer pessoa. Nenhuma empresa vai contratar um <????????> pra trabalhar!"
Sim...eu já ouvi essa sentença (mais de uma vez!), seja no trabalho ou em outros espaços em que tive que lidar com demandas relacionadas às pessoas com deficiências ou TEA. Escolhi a que sabia que ia fazer você vir ler esse texto, mas poderia listar mais algumas que carregam significados muito parecidos e que eu sempre encaixo em uma categoria de inclusão que é muito recorrente e que eu chamo de "inclusão de nicho".
Pra mim, a inclusão de nicho acontece toda vez em que se prioriza ou destaca um subgrupo dentro de um grupo social formado por pessoas com alguma deficiência ou transtorno para o atendimento de alguma demanda. De forma mais ampla, eu gosto de pensar que ela também se manifesta quando um grupo luta por seus direitos sem considerar a luta de outro grupo (ou do grupo mais amplo, quando estes se encaixam no mesmo "perfil"), ou quando sua demanda só é atendida parcial e pontualmente, sem qualquer preocupação em ampliação do escopo pelos agentes responsáveis pela solução.
Por exemplo, particularmente, eu fico incomodado quando se discute a criação de um centro de atendimento especializado para pessoas com TEA, enquanto outros grupos ficam excluídos por não estarem mais no centro do debate. Mesmo sendo pai de um autista! E o mesmo acontece quando são apresentadas ""soluções"" como a priorização das cotas (seria um tipo de cota da cota, gente?!😶) ao invés de pensar alternativas de atuação profissional ou até mesmo cumprir um direito assegurado, como a educação ao longo da vida. O pior é que essa mentalidade também está impregnada em grupos de pessoas com deficiência que não percebem que, se reconhecendo como minorias (de fato!) deveriam se colocar no movimento que agrega...ou pelo menos não segrega, afinal existem demandas comuns que poderiam trazer ganhos pro coletivo.
E se você não vê muitos problemas nessa fala, pois "pelo menos algum tipo de inclusão já estaria em curso"...é justamente isso que eu queria trazer pra reflexão. Até que ponto achar que "alguma inclusão" já é suficiente numa sociedade como a nossa? Uma mentalidade referenciada na inclusão de nicho não seria mais uma barreira de acessibilidade que freia o avanço da inclusão de pessoas com deficiência nos diversos espaços sociais?
Como poderíamos pensar em currículos concebidos considerando os vários perfis, centros de especialidades que atendem demandas que estão na intersecção das necessidades de cada grupo, e experiências pensadas em considerar mais diversidade se alguns estão adotando uma mentalidade que nos mantém presos numa realidade de "lamentações"? É imprescindível manter uma visão para um horizonte em que enxerguemos a diversidade de corpos, de potenciais e de formas de estar no mundo.
Que 2026 tenhamos consciência que a "inclusão de nicho" não pode moldar a mentalidade de uma sociedade que quer melhorar as condições de vida de pessoas com deficiência ou transtornos, seja em casa, no trabalho e no convívio com os outros.
E a minha causa, no contexto da inclusão, precisa ser a nossa causa!
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